E o teto parece estar mais baixo, os mosquitos perturbam o que poderia ser uma boa noite. O lençol está nos pés e o ar parece não ser suficiente em meio ao calor. Direito e esquerdo, nenhum dos lados parece ser o ideal. O certo é ficar olhando para o nada até que o sono apareça. Entre o nada e meus pensamentos existem tantas barreiras. E eu odeio noites de calor, com mosquitos e sem sono.
De repente uma dor, sei lá, é algo que aparece e me consome. Tento resistir, mas não dá. Fatos, ações, gestos, lembranças. Tudo isso em mim, dentro. Cresce. E aí, você sente vontade de gritar, e o travesseiro é o único que te ouve. As lágrimas caem e só você as sente. E vê que está tudo errado, que quem está ali não é mais você, é alguém que já se perdeu no tempo, que não vai mais voltar, mas que insiste em aparecer em solitárias noites de verão, cheias de mosquitos e sem sono. Um ser que já se foi dentre tantos que já fui e ainda serei, só mais um. Que me consome sempre que aparece. E a vontade de gritar e de chorar é maior e nada e ninguém pode te ajudar, tudo isso é tão seu que o torna um egoísta, mesquinho, com medo de compartilhar tudo mais uma vez e perder tudo, inclusive a dignidade. Sim, porque quem cai nesse jogo perde tudo, a noção do tempo, de espaço, perde a noção sobre si. E lembranças vão e vem. Pessoas que já saíram e que não deveriam voltar, reaparecem. E o medo, e a saudade e a solidão te deixam encolhido na cama, como quando era criança e sentia medo do bicho-papão, mas agora você se tornou o seu próprio bicho-papão. E alimenta-se de restos, sobras que ainda te machucam e te assombram cada vez mais.
Os mosquitos começaram a cansar e vão desaparecendo. Um incomodo a menos. O ar parece retornar lentamente e uma brisa o puxa para o presente. E agora há o reencontro do tempo, do espaço e do ser que você realmente é (ou está). O teto voltou para o lugar e as lagrimas foram substituídas por um sorriso de satisfação. E você percebe que dar uma chance para reconstruir-se é saboroso. O fato de permitir-se te torna alguém altivo aos seus olhos. A tristeza, a solidão e o medo são lançados ao ar dão lugar aos sonhos, e quantos sonhos, e quantos suspiros. E o sono aparece, e um perfume imaginário toma conta do ar. É a hora da boa noite.
Volta logo e não me deixe mais sozinha!
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