Era tudo tão fascinante. Dedos cruzados e movimentação de madeira eram indicativos de que algo bom aconteceria. Passávamos a semana repassando frases batidas, “a ponte quebrou”.
- Esse ano você será o meu par, mas tem que dançar bem direitinho (desde pequenas meninas tem esse poder).
“Olha a chuva”.
Na escola notava-se a agitação de todos. Alguns preparavam bandeirinhas, outros caprichavam no correio elegante e a nossa função era simplesmente complexa. Ensaiávamos exaustivamente reinventando a canção antiga.
No final do dia a diretora chegava na sala de aula e entregava números de rifas, os quais nos enchiam de satisfação e responsabilidade. Quem fosse o primeiro a vender os 5 números seria coroado.
Meu caminho era certo. Passo na Nona e no Nono e já tenho menos 2 números, atravesso a rua e minha tia compra mais dois, chego em casa e o único número que restava leva meu nome, em letras de forma, e a esperança de ganhar a bicicleta doada por alguma fábrica de móveis da cidade.
À noite, em casa, ouvia várias vezes que vender 5 números já era o suficiente.
Amanhã é o último dia para ensaiar e a noite seguinte será longa.
- Bia, pare quieta – insistia minha irmã. Laços no cabelo, roupa colorida e pintinhas no rosto. Não me importava se ficaria toda borrada, só queria chegar o mais rápido possível.
E a noite corria. O colorido brincava de rodopiar com ar frio e cumprimentava o público. As fitas antes nos cabelos, agora enfeitam a bolsa da minha mãe. E de repente, a festa acabava. A alegria aparecia nos sonhos, ansiosos pelo ano seguinte.
Enxerguei naquela noite uma chance de retornar à infância. Mesmo cansada e com uma vontade gigante de ficar em casa trajei-me de nostalgia e fui. A movimentação ainda é a mesma, a madeira empilhada também. Mas a mudança é visível, iniciando por mim, que de acompanhada passei a acompanhante. Mantive-me presa à minha mãe tentando esconder a insatisfação de não encontrar rostos conhecidos (é mano velho, você passa e desfaz laços tidos como indestrutíveis).
No som o pedido para que algumas pessoas abram caminho, que a moda vai iniciar. Ansiosa acompanho todos os passos tentando me reencontrar em alguma daquelas crianças. O primeiro grupo passou e nada de semelhante ao passado e a mim. Foram mais três apresentações e mais uma vez testei a paciência da minha mãe, enchendo-a de interrogações saudosas e indignadas.
A noite passou e levou junto alguns copos de quentão, algumas varetas de “xixo” e o desejo de pescar um peixe em pacotinho. A sogra não apareceu, a ponte não quebrou, nem sequer pingos de chuva foram vistos. A bicicleta foi substituída por um DVD e as meninas não precisam mais de meninos, elas dançam sozinhas. O vestido colorido, listrado, florido deu lugar a uma camisa xadrez, que tem o poder de deixar o umbigo respirar. Os meninos quando aparecem fazem questão de mostrar uma garrafa de bebida alcoólica e carregar algo exibicionista. Senti medo de estar me tornando uma chata e transformando o simples em complexo. Voltar no tempo pode ser difícil e frustrante.
Saudade de quando pintar o dente de preto era ousado!
Bia, por que está tão quieta? – insistiu minha irmã.
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