E se pensar,é simples, as coisas mudam, nem tudo sai como vc espera. O desejo de ontem não tem (d)efeito hoje. O que tenho é o que sempre quis, esperei.
E essa história de fazer planos é meio idiota. Não somos donos do futuro, o futuro é nosso verdadeiro dono.
Não vou mentir, já chorei, e muito. Por tudo que passou e que se perdeu. Pelo desenho rabiscado e não colorido. E esse atalho que peguei?
E esse sorriso triste que vesti? E a mudança?
Estou tentando me comover com prováveis decepções, mas nada mais sai de mim. Não existe decepção.
Por um tempo procurei em outras pessoas aquele timbre, aquele perfume, procurei bilhetes. É importante acreditar que vai acontecer exatamente como vc esperava. Sim, acreditar é bonito e menos dolorido. Agora, vi que minha crença foi o que me levou a realidade. Triste e dura realidade? Não, à minha realidade.
Já não me sinto mais ferida. Nem triste, nem doce, nem certa, nem errada.
Cai no mundo real. E as asas e o coração despedaçado são minhas companhias.
Conformismo, jamais pensei nisso.
Vou te escrever carta e não mandar.
Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
Vou ver Saturno e me lembrar de você.
Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
O tempo não existe.
O tempo existe, sim, e devora.
Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido.
Alfazema?
Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.
(Silêncio)
Mas não seria natural.
Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
Natural é encontrar. Natural é perder.
Linhas paralelas se encontram no infinito.
O infinito não acaba. O infinito é nunca.
Ou sempre.
(Silêncio)
Caio Fernando Abreu
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