"Eu não quero ver você fumando ópio, para curar a dor"
Que dor é essa? Que nenhum analgésico cura. Que dor é essa, que fere, machuca, penetra fundo, sem piedade. Dor sem escrúpulos e com voracidade de um leão que corre atrás da caça. Dor que dói sem que os outros vejam. Dói aqui dentro, no fundo. É um sobe e desce eloqüente. Idas e voltas, imagens, mensagens, telefone, internet. Nada, nenhum sinal.
É uma estrada fria, escura, assombrosa. É um medo do hoje, uma lembrança do ontem e uma incerteza do amanhã. O coração, ah esse coração ferido, marcado, em pedaços. Não sei o porquê dessa minha insistência, estava tudo certo, eu, meus livros, papel, caneta e minha mente.
Não mais que de repente, a batida do coração invadiu meu silêncio, me fez saltar e entrar no ritmo dela. A batida, crescia, ficava forte, quase insuportável. Deixando-me totalmente entregue a ela. Quando eu menos esperava, levou-me para uma montanha alta, sem obstáculos e jogou-me de lá. Caía sentindo, vendo e ouvindo tudo. Caí e agora as feridas estão comigo, estão em mim, causando a tal dor. Tento minimiza-las, torná-las menos latejantes.
Tento encontrar uma cura psicológica. E se minha taquicardia foi causada por alguém que fugia, que buscava um novo sol, que corria de olhos fechados, sem direção e no meio do caminho deparou-se comigo, parada, sentadinha esperando por carona. Embarquei na corrida alucinante, perfeita, cheguei a fazer planos, sonhar. Mas esqueci que estava de carona e meu ponto de parada chegou. Insisti, foi em vão. Era preciso continuar a corrida e eu precisava descer.
Claro, agora tudo é compreensível. Desci no lugar errado, no alto da montanha e não percebi a altura do tombo.
Vou procurar uma farmácia que venda uma dose de tempo, assim as feridas vão cicatrizar com maior rapidez.
(Esqueci de agradecer pela carona)
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